terça-feira, 18 de maio de 2010

Um bom livro: "Aula de Geografia" de Manoel Fernandes

 

Muito bom o livro "Aula de Geografia" de Manoel Fernandes. Excelente para qualquer pessoa que pretenda ser um educador, ou mesmo que decida refletir sobre a educação, assim, também para todo aluno. Um livro encantador e divertido, tanto quanto revelador das contradições do processo de transmissão do saber.

  Durante o delicioso processo que é o desenvolvimento de uma monografia (mas nem sempre tão prazeroso), fui presenteado pelo meu mestre e orientador prof.: Gilberto Oliveira - um excelente mestre com quem tenho a honra de aprender e a sorte de ser aluno - com a sugestão de leitura de um livro muito interessante, tanto quanto divertido e essencialmente importante para qualquer educador, e também para todo aluno.

Um livro pequeno, escrito numa linguagem simples e poética, traz complexas temáticas e profundos questionamentos, retomando em muitos momentos Paulo Freire, revelando a "fúnebre" atmosfera da sala de aula hoje, e a necessidade de mudança desse quadro para o presente e futuro.

Destaque para a frase do autor: "(...) A imagem, entretanto, que se tem da aula, para muitos, é a imagem da morte."
- Para mim essa frase é quase uma revelaçao Freudiana da relação aluno-aula (cujo algoz se traduz na imagem do professor, em muitos casos, com muito direito).




Recomendo demais esse pequeno, breve e divertido livro, que com certeza promove uma concreta e densa reflexão.

Uma passagem tanto bela, quanto interessante da visão desse, creio não ser imprudente dizer, irreverente geógrafo, prof.: Manoel Fernandes:

"O mangue vive de um jeito diferente. Entre o rio e o mar ele se ocupa de ser um incestuoso estuário da vida que veio e da vida que passará. Em seu manancial confuso de argila absorvente, silte brincante, organismos em decomposição, o universo vivo de suas belas formas se recria incessantemente. Ambiente mágico e dialético, oposto ao desenho estético disciplinador, o mangue fechado sobre si mesmo, abre-se em seus mistérios para receber. Quem desejar compreendê-lo deve tentar penetrá-lo incansavelmente, abandonado a terra firme da certeza e a careza das fontes límpidas."

Demais, um Salve ao poeta!
Um Salve à concepção criadora da existência.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Guerra ao Terror (...) ?????...


Guerra ao Terror (?). Não!

Que tal Apologia ao Terror. Talvez!




Pelo menos a absurda permiação desse filme, que além de tudo é muito ruim, serve para evidenciar o quanto o Oscar é um prêmio político.




   Mais uma vez, Hollywood, que faliu a muito tempo e vive do patrocínio das grandes corporações empresarias (principalmente a Bélica, entre outras) se coloca como justificativa e discurso da perpetução do terror no planeta.

  No filme intitulado "Guerra ao Terror", tentam inverter os papéis, mostrando um exército que desrespeita a soberania interna de outro país, suas leis, seus costumes - como salvadores, cara que absurdo! E todo mundo sabe, em nome de conseguir colocar no poder pessoas afeitas em aceitar grandes empresas que desejam se estabelecer naquele território, além de uma fatia no controle da produção: do petróleo. (a atual veia aorta da econômia norte-americana).

  Não se enganem! Não sou anti-norte-americano (mas conheço muitas pessoas que são). Minha filosofia é do amor, do perdão, e do conhecimento. Sou contra a imposição ideológica que facilmente se instala no cenário imagético construído pela proganda ideológica no cinema.

Em outras palavras eu sou contra: a idéia de que a impulsividade se sobreponha à cautela (personicada no protagonista: ele não reflete, ele age, tem armas e é bom). A cautela e a reflexão são demais importantes, a impulsividade também tem seu valor, mas não na forma como argumenta o filme.

Sou contra a idéia de que os soldados não podem tentar ser civilizados, e conversar com os cidadãos (personificado na cena em que o psicólogo tentando conversas com os cidadãos locais, explode - claro estão na guerra e guerra é guerra não é? Não! A guerra foi imposta ao lugar, e os terroristas fabricados pelo terror da guerra - guerra ao terror? o terror é a guerra).

Sou contra a visão desumanizada contra os mulçumanos, até porque meu segundo pai (meu padrasto) é libanês, e eu sei o que é ter parentes no mundo árabe - é a própria personificação do terror - a mídia te esquece, o mundo te esquece, e o petróleo desaba sobre suas cabeças como uma bomba.

Sou contra a idéia de que um home prefira viver perto da morte do que encarar a própria família. Não tenho dúvidas, viver uma família intensamente em todas as suas responsabilidades é mais difícil do que desarmar qualquer bomba. Exige mais reflexão, nos conduz a um estágio mais elevado de nós mesmos.

Um Salve à vida, não à guerra.

Hollywood é a verdadeira indústria da arma. - Conte quantas armas estão nas capas de filmes em locadoras, façam essa experiência. Ela não mereceria um processo por isso? hehe

Um Salve à Paz!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Projeto Ficha Limpa, votação

Ontem eu estive no Congresso Nacional para acompanhar a votação do Projeto Ficha Limpa – que impede que um homicida, um latrocida, ou um corrupto se candidate para representar o povo, na nossa forma representativa de democracia. Não posso negar que no mínimo, foi um grande aprendizado, o qual pretendo compartilhar.
Para aqueles que afirmam que o Projeto Ficha Limpa – PLP de 1993 (sim tem dezessete anos que essa lei está sendo enrolada no Congresso) vai esvaziar a casa representante dos interesses da nação, a resposta simples e clara é: não! Vai apenas substituir as figuras marcadas que estão lá fazendo negócios a custa das expectativas e necessidades urgentes de uma nação.
Pois então, eu estava lá, acompanhado de mais meia dúzia de gatos pingados, e o que posso dizer é que no mínimo foi interessante estar lá. Primeiro ponto é dificílimo chegar às “Galerias” (o local de onde podemos acompanhar a seção). Antes de encontrar o corredor, através de uma porta quase fechada em um canto aparentemente em eterna reforma, pedindo orientação duas ou três pessoas haviam me dito que eu não poderia entrar na seção pois eu estava sem terno. Até que um nobre cavalheiro me ensinou o pedregoso caminho para a Galeria, lugar onde pode se entrar sem terno, e acompanhar o zoológico, a feira, que uma plenária no Congresso.
Estavam votando duas emendas que efetivamente descaracterizavam todo o projeto Ficha Limpa, uma a respeito dos colegiados, outro que permitia que o candidato processado consiga na justiça uma decisão de efeito suspensivo para se eleger, ou seja, todos. O que retira a validade da referida lei. Fato é que essa lei só passaria com essa pequena emenda, pois a maioria dos que a votavam tinham se elegido com dinheiro podre. Nossa Câmara e o presídio tem como diferença somente o tratamento que recebem seus interno, e os ternos, de resto, tudo igual.
O mais interessante contudo é a cara de pau, da infeliz atitude da maioria ali. Votando pelo “sim”, os deputados votavam a favor da emenda que descaracterizava o projeto. Cada deputado fez um discurso completamente diferente, e alguns até emocionados, mas todos votaram pelo “sim”. Uns foram categoricamente a favor da emenda defendendo que a democracia deve ser leniente com o fato de que bandidos e assassinos possam se candidatar. Outros, menos enlouquecidos, defendiam a necessidade do Projeto Ficha Limpa e a moralização da Casa, mas todos votavam sim.
Um fazia um discurso e diz “sim”, outro atacava esse, dizendo o completo oposto, e emocionado, também votava “sim”. Uma tremenda peça clown, um espetáculo que se não fosse triste, bem poderia ser muito engraçado. É uma ofensa a qualquer pessoa o que eles fazem. As duas emendas foram aprovadas: O Projeto Ficha Limpa é só fachada.

A posição da galeria, de onde qualquer pessoa pode assistir às votações, é pelo menos interessante: ao menos uma congratulação ao honrado Niemeyer. Ficamos no andar de cima assistindo em baixo um grande teatro feito para a população brasileira e para eles mesmos. Enquanto um deputado fala ao microfone todos os outros estão conversando em panelinhas, num frenesi que bem parece que estão rapidamente vendendo o Brasil. Ganhando dinheiro vendendo o que não é deles, isso no mínimo é apropriação indébita, para não dizer que são um bando de ladrões. A maioria bradando pela democracia, esta, que representa o grande volume de dinheiro que entra nos seus bolsos.
A democracia é algo importante, sim! A mais importante. A democracia plena, talvez uma utopia. As utopias são importantes. São metas, conjunto de princípios e ideais que devem ser buscadas sempre. Atingi-las significa atingir a plenitude da realização do ser humano sobre o planeta. A democracia também é um exercício, de aprimoramento das instituições, reflexo de uma educação completa que permita ao homem compreender todos os processos sociais dentro de sua unidade, o corpo social como um organismo do qual todos dependemos e fazemos parte.
Perguntei a um colega o que ele tinha achado da plenária, e ele me respondeu que nunca mais bebia na vida. A sensação ali realmente é de que ninguém leva esse país a sério! Pois deveriam, aqueles velhos abutres que se penduram à política por não oferecer educação ao povo, e assim tira o poder de suas mãos, e o transporta aos volumes financeiros de campanhas que promete quimeras à um povo faminto e desesperado porque não tem informação nem conhecimento.
Mas eu sou otimista, acredito no poder da informação e do conhecimento, e se nossos representantes não querem cedê-la ao povo, ela vai chegar de qualquer maneira, mais lenta, mas vai chegar. Pois não se enganem, a verdade, ninguém pode calar. E todos estes que agora pensam que estão saindo “ganhando” ainda vão ser lembrados pela história como grandes covardes, piadas. Suas memórias farão jus ao que construíram em vida.
A força da vida, não se enganem, é poderosa, caso contrário não estaríamos aqui.


terça-feira, 27 de abril de 2010

Direito Internacional e relações interpessoais

Viver a pluralidade é um desafio. Um desafio que deve ser assumido como responsabilidade e como meio de aperfeiçoamento de nós mesmos. Como todo desafio, ele exige de nós, nossa própria superação. É um exercício que demanda energia, paciência e compreensão. Esse processo, de modo geral, bem poderia ser compreendido como uma forma de exercício da alteridade.

A ciência do Direito é um imenso lócus onde a pluralidade das idéias disputam espaço. Alguns estudantes e professores de direito podem crer que o Direito é um ramo que pretende unicamente auxiliar o grupo dominante a manter o seu poder. Eu discordo dessa posição. Conviver no mundo das pluralidades das idéias não é concordar com tudo. O Direito Internacional é a parcela, que pessoalmente, mais traz a discussão da natureza e essência do direito para onde efetivamente deveria ser feita: na perspectiva mais humanista possível. Pois é uma ciência criada pelo homem, para o homem, em cujas relações encontra limitações de realização; e assim, a partir dos homens, ela pode conceber caminhos diversos para a própria realização da sociedade, e do seu entendimento pelos indivíduos.

São três as, que me parecem, principais razões do Direito Internacional - todo acordo pode ser realizado pelos Estados desde: que previamente acordado, que o objeto seja lícito, e que se respeite a soberania interna de cada Estado.

Não deveria ser, assim, justamente também no âmbito das relações interpessoais? Todo acordo pode ser válido entre quaisquer pessoas, desde que anteriormente acordadas pelos interessados; desde que o objeto seja lícito - devemos aqui entender lícito no sentido de positivo para ambos e para os demais; e desde que se respeite a soberania que cada indivíduo de possuir sobre si mesmo.

A paz não é um fim, é o caminho. O amor, uma forma de compreensão.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Pais e filhos...

Existe uma grande parte da cinematografia mundial, daí pode-se inferir, especificamente, Hollywoodiana, o que vale também pro universo dos romances (livros), que busca evidenciar, talvez no anseio de buscar descobrir as possíveis causas, ou mesmo de compartilhar a angústia que muitos pais expressam perante a impossibilidade de compreender os filhos; ou mesmo da frustração de perceber nos filhos pessoas completamente opostas a elas, e às suas expectativas.


Em boa parte destas obras tem-se então um pai, ou pais (inclue-se aqui a mãe), que são verdadeiros super-heróis, dotados de talentos surpreendentes, e principalmente de uma singular força vital, cuja limitação aparentemente somente se revela na incapacidade de fazer revelar ao filho á imensa sabedoria e conhecimento dos processos da vida, que possívelmente lhe trariam a anulação dos conflitos e ansiedades. Sem entrar na discussão que a própria tensão gerada por esse universo de expectativas impõe sobre os filhos; paralelamente à versão sugerida, corre outra versão, a das infinitas possibilidades da vida não acessíveis. A vida, que aparentemente é única, e assim impossibilitada de comparação impõe a dúvida da certeza das decisões.

De tal maneira, costumeiramente na gama literária acima mencionada, é possível vizualizar um processo de projeção do fator limitador aos filhos. O super-herói que tudo pode, não é capaz de usufruir da liberdade, que em verdade é virtual, e assim pode atribruir a qualquer motivo o fator da limitação, menos à própria condição da vida, e acaba atribuindo em maior parte ao filho. Que se num primeiro momento urge pela atenção e amor, logo que percebe a culpa sobre o destino do progenitor, se esconde na apatia, indolência, ou rebeldia; até o momento que consegue atingir maturidade necessária pra entender que não tem culpa de nada e que na verdade, seus pais, os grandes super-heróis, são uns babacas e a culpa dos seus possíveis fracassos são unicamente deles.

- esse texto é inspirado no livro “Clube do Filme”, não lembro o nome do autor.

Aos pais o sentimento de “Porra, ferraram minha vida e ainda sou obrigado a ajudar eles a chegar a algum lugar”. Ao filhos “Onde foi que eu errei? Só faço merda mesmo” (Talvez daqui Freud tenha intelectualizado a percepção da fase anal na criança– Pra rir mesmo); seguido de “Vou ser qualquer coisa oposta aos meus pais”.

E no fundo, todos se amam, de uma forma ou outra. Tão contrário assim é mesmo o amor. Talvez seja o amor a liga que consiga manter toda essa contradição dentro de uma possível unidade.
Vamos amar então.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Desenvolvimento

Qualquer desenvolvimento concreto e duradouro deve obviamente ser precedido de investimento em pesquisa, produção, inserção de tecnologia. Não se trata de pensar a tecnologia inserida nos modos de produção, como maquinário na agilização dos processos de produção, como automatização desses processos. Trata-se, em verdade, da necessidade de impor desafios, ou melhor, enfrentar os desafios, existentes na relação entre desenvolvimento e equilíbrio, tanto ambiental, da compreensão das dinâmicas ambientais e o sutil equilíbrio existente; tanto quanto sociais. Ao contrário do que se possa imaginar, ao invés de uma crítica que procure ressaltar a necessidade de modificação do capitalismo (o que é, minimamente), este ponto revela a impossibilidade de um modelo de produção que tenha como centralidade a necessidade do lucro; e assim, é uma crítica ao próprio modelo.
De todo modo, tomando o foco sobre um desenvolvimento possível e necessário, concreto, consistente, dentro das impossibilidade impostas pela forma atual das relações existentes, e dentro desta, é indiscutível a necessidade de implementação de uma mentalidade ansiosa por desafios, que se possa enfrentá-los, direcionar investimentos a partir de tais. Todavia enquanto os agentes e atores do mercado estiverem atrelado ao poder político, jamais será possível transcender esse resquício colonial do atraso.
Um exemplo claro dessa questão se traduz na criação de bairros “ecologicamente corretos” que ao contrário de preservar, devastam a mata original e depredam áreas do meio ecológico, ignorando sua infindável, e essencial, importância às futuras gerações. Conquanto que o pecado maior sempre será atribuída à especulação imobiliária, a negligencia à busca de alternativas no desenvolvimento de tecnologias para a construção de edifícios efetivamente ecológicos tem caráter duplamente funesto. Em primeiro lugar é sórdido porque ignora todo o conhecimento adquirido, da importância da manutenção das espécies no planeta; em segundo lugar, porque não permite ao estudante, ao futuro profissional, ou à sociedade, a possibilidade de desenvolvimento de novas tecnologias que proporcionem efetivamente a existência de um modelo sustentável, perpetua a posição de eterno dependente de importação de tecnologia, buscando encontrar o equilíbrio na balança comercial nacional através da exportação de insumos primários, do agro comércio; intensificando as imensa feridas existentes nos territórios que se desenvolveram dentro do modelo atual a partir da colonização e exploração dos seus bens, os territórios colonizados.
Pacto doloroso e longínquo, das relações supérfluas de um grupo que não entende nem porque continua no poder, mas que a todo custo, e a todo preço, faz questão de se perpetuar e atravancar o sentido da história.

...

“A mudança é parte da natureza humana, desejar a revolução é o que há de mais coerente nela; é a nossa condição de perpetuação através do tempo. Canalizemos então à Eros, o sentido da criação e da vida, façamos da vida este templo prazeroso da ampliação de nossas capacidades perceptivas”.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um sentido de compromisso em detrimento da responsabilidade aparente.

O conceito de responsabilidade, aparentemente, está mais proximamente relacionado a uma idéia vaga, e imprecisa - e impositiva - a respeito de como um indivíduo deve estabelecer sua relação com o mundo, do que necessariamente um entendimento a respeito do caráter do compromisso. Tal idéia de responsabilidade, dessa maneira, muitas vezes repercutida, é em verdade redutora da compreensão do homem à uma pequena peça de uma grande engrenagem ao qual constitui; e ignora, e mesmo nega, as infinitas potencialidades humanas, e suas possibilidades de realização - sua condição de existência, e do próprio planeta que habita.

De tal modo, encontra essa afirmação, a de que apenas uma fase na vida do indivíduo seja constituída de responsabilidades, certa pacificidade de aceitação, por se constituir num repertório comum; e assim, a partir da repetição, a tendência à solidificação como uma verdade. Todavia, a crença da existência de uma idade em cuja automaticamente se adquire essa suposta responsabilidade, não leva em consideração uma percepção que se associe intimamente à preocupação com a condição do planeta, a uma reflexão sobre a construção da sociedade, ou sobre as relações entre as pessoas; e ainda, parte do entendimento de que todo indivíduo seja constituído exatamente da mesma materialidade, e que a evolução individual de cada pessoa possa se dar em fases distintas, e não numa continuidade do aprimoramento das capacidades humanas, físicas, intelectuais, que se iniciam, ou se reiniciam, no nascimento; e que jamais finaliza.
Apresentando-se mais como um intrigante resultado de um processo cultural que perpetua instrumentos de repressão aos impulsos de vida, às energias sexuais, aos traços que se estabelecem nas esferas criativas - situando-os aos aspectos de não responsabilidade. Relacionando a idéia de amadurecimento a um desenvolvimento da capacidade individual de repreender suas potencialidades criadoras, ou seja, de se tornar um possível, ou até, provável, angustiado neurótico, potencialmente depressivo, e um potencial repressor.

Entretanto, que não seja exata e absoluta nenhuma regra no que diz respeito ao realizar da existência, aos indivíduos é possível toda forma de inserção nos diversos universos de possibilidades. É importante, todavia se ater, e entender, o processo do compromisso, sua necessidade, importância e os reflexos que se estabelecem a partir deste. Do compromisso com o outro, com a natureza, com nós mesmos; um dos caminhos que se fazem à busca da resposta da vida. Ao homem, só não é possível esquivar-se da própria liberdade, do íntimo da própria consciência.

Nada mais libertador que o conhecimento. Se a cada descoberta lhe apresente o desespero, e o insuportável, o passo seguinte é desvendar a trilha da superação, e assim, possível de tornar-se mais robusto, mais forte, mais sensível.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Fora Arruda Paulo Otávio Roriz e companhia

Que ao menos sirva como registro dos acontecimentos que nos cercam neste momento, o desejo de reiteração da indiginação frente aos fatos recentes conhecidos.
Não somente ao ato de corrupção - e é bom sentir que não devemos mais aceitar acomodadamente estes fenômenos surpreendentemente sórdidos, submetidos ao terrível argumento do "isso acontece o tempo todo" - como também aos atos de brutalidade ao qual o sistema repressor, polícia, exército, em todos os momentos oportunos apresentam sua tendência ao massacramento de estudantes, professores, e atos de injustiças, cercados que estão, de cacetetes, capacetes, e da própria lei; dispostos a prender a qualquer momento ao custo do desacato da autoridade, em detrimento dos atos de abuso de poder.
Que a imprensa tenha cada vez mais direitos - não privilégios - e que a sociedade se desencante cada vez mais pelas notícias vãs, devido ao excesso em que se apresentam, e se sintam cada vez mais atores do seu tempo e de sua história, pois é isso que somos o tempo todo, nos mais sutis instantes de nossa existência, em todas as oportunidades que temos de decisão.
Que daqui a alguns posts se apresente um, tanto quanto heróico com a derrubada do Arruda (atual governador de Brasília0 Paulo Otávio (seu vice, marca reconhecida no setor de construtoras) e Roriz (ex governador).
Que essa gangue saia acuada, não das urnas, porque é ímpossível conter o controle populista à estratégia de assistência social eleitoreira; mas na própria linha de batalha dos cursos de possibilidades democrática; e da possibilidade, se não de justiça, do cumprimento da lei.

Fora Arruda, fora P.O fora Roriz - fora gangue do DF, verdadeiros marginais, inimigos da sociedade.

Um outro futuro é possível.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Semestre, um período significativo

São períodos significativos todos aqueles que nos modificam, em intensidades diversas, de maneiras distintas. Definitivamente o semestre, como medida de unidade da totalidade do processo de graduação na vida universitária, é um período bem significativo. Quer queira quer não a partir da nossa relação com a métrica realizatória da nossa evolução intelectual na área específica do saber ao qual, inocentemente, ou não, engajamos nossos esforços e empenhamos nossa batalha, nos sentimos mais ou menos próximos, ou distantes, da normalidade - institucionalizada ao percurso; das expectativas que geramos quando fomos inseridos nesse processo, que as vezes parece uma rota indistinta de colisão. (...) Tontos, felizes, atordoados, vamos nos anestesiando, ou despertando, e construindo nossas experiências nesse universo que nos afasta de quem éramos e nos aproxima do que vimos a nos tornar, sendo, de certa forma, sempre os mesmos, e nunca aqueles.
Nesses períodos acabamos descobrindo limites que desconhecíamos, e vamos desenvolvendo habilidades de lidar com esses limites e superá-los. Às vezes sentindo a mudança quando percebemos que redimensionamos os períodos anteriores, e como, por outras vezes, podíamos ter feito melhor se fosse agora. Ao agora cabe improvisar da melhor forma possível, pra daqui a alguns anos perceber que poderia ter sido diferente, porque enfim dentro as infinitas possibilidades sempre existirão outras. Perceber o peso do sistema e das instituições, a voz muda que fica entalada no peito, ficar exposto à mediocridade alheia, daquele que tem dificuldade de lhe entender e talvez nem o faça questão, porque o aprendizado a muito tempo se tornou um campo de batalha. E também, os amigos e companheiros na jornada. À quem acredita na oportunidade do futuro, que fiquem reservados os espaços de discussão.
Entender por fim, que não há nada maior na vida do que se emocionar. Um poder que devemos guardar, resguardar, desenvolver. Porque fora à vida que existe dentro de cada um, ou não existe nada, ou existe pouca coisa, sendo que, e a vida dentro de cada, não se faz alheia à vida a qual se realiza a própria pessoa - em outras palavras: existem dois tipos de felicidade, daquele que se sente feliz sentado em uma confortável poltrona em meio à um amontoado de miséria; e do outro que sente a felicidade no processo de mudança, longe da confortável poltrona, ao lado do desejo de mudar. Não é hipócrita, o que se reconhece humano, e suas limitações, e ainda, sempre, procura superá-las.
Se o ser - humano se realiza em sociedade, do mesmo modo como deve cuidar da árvore frondosa que lhe dá sombra, do planeta que lhe possibilita os frutos, deve prezar em refletir tal sociedade, que contêm as possibilidades pra a realização da sua vida. Final de semestre; final de curso; impossível negligenciar essa reflexão. – Terminar o semestre é sempre uma sensação terrivelmente maravilhosa, que termine bem. Quanto maior a batalha, maior as chances de aprender a agir, e reagir, à face da adversidade, de nos tornarmos fortes... que a magia da felicidade nos torne mais fortes também, e nos ensine a amar mais.

“Won´t you help to sing? These songs of freedom” O Rei. B. Marley.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Globalitarismo – Globalização e visão Paranóica do mundo.

Em Por uma outra Globalização (2001), Santos ressalta o processo de construção da idéia do mundo globalizado, como fábula. Tal processo se dá primordialmente através da repetição de um certo número de fantasias tidas - e assim, impostas - como realidade, e que acabam por se constituir como base aparentemente sólida de interpretação da própria realidade. Todavia, o que se observa é que o processo atual de globalização, através de suas linhas principais de imposição de forças homogeneizantes – o que Santos (2001) caracteriza como máquina ideológica - desconsidera as características territoriais locais, e impõe fragmentações ao espaço, assim como necessidades virtuais aos indivíduos; em detrimento da promoção da realização da cidadania plena e universal. Camufla as contradições existentes, através de uma metanarrativa que busca promover uma espécie, ou tipo, de “darwinismo social” baseado em condições de consumo, ou, em potencialidades de materialização do consumo; De tal maneira, nos revela, Santos:
“(...) Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca da uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho da cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso o culto ao consumo é estimulado.
Fala-se igualmente, com insistência, na morte do Estado, mas o que estamos vendo é seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil(...)”. (Santos, 2001, p. 19)
O processo descrito acima, que tem sua gênese no modo de produção atual, se insere nas diversas instâncias da sociedade - no espaço, e também nas instâncias política-institucional e cultural-ideológica (Santos, 2008), e, de tal forma como as diversas instâncias contêm e estão contidas umas nas outras, a lógica do capital, ou a ideologia da reprodução do capital permeia todas as esferas da realização da vida. As linhas de ações que buscam promover os meios de reprodução do capital se inserem nos processos democráticos, deturpando a função representativa da democracia; corrompem o sentido identitário da produção cultural, transfigurando-a numa indústria de massa; estimulam a construção de uma mentalidade individualista e competitiva entre os indivíduos, cujas necessidades têm de se realizar no menor período de tempo possível. Perde-se a noção da perspectiva a longo prazo, e estimula-se a realização unicamente do agora, da felicidade instantânea, e efêmera, que se pode obter através da materialização do consumo - a fábula da globalização: “ O mundo ao alcance das mãos”.
Freud (1913), destaca a relação entre os sintomas neuróticos, da projeção da angústia interna a objetos externos, e fenômenos culturais – que pode se manifestar, também, por meio uma obra de arte, por um processo de sublimação, de uma doutrina filosófica, ou da religião. Assim, numa perspectiva didática de esclarecer a relação de tais projeções aos sintomas neuróticos, afirma que é possível “estabelecer que uma neurose obsessiva é a caricatura de uma religião e que um delírio paranóico é a caricatura de uma doutrina filosófica” (Freud, 1913, p.73 conforme Bell 2005, p.21). A partir de então, e tomando a força de expressão apresentada por Santos: “(...) o culto ao consumo é estimulado”(Santos, 2001, p.19), é possível observar que o consumo se coloca, no atual modelo de globalização, possível de se realizar nos dois níveis existentes, tanto como religião, tanto quanto doutrina filosófica. Como religião porque se impõe a necessidade do dinheiro ausente do um sentido teleológico, tomando-se por fim a necessidade do “dinheiro em estado puro”, do culto à realização da satisfação e obtenção do prazer, a partir do próprio acúmulo do dinheiro, e também como capital, e dessa busca como condição da felicidade e como possibilidade de realização plena da existência; como doutrina filosófica porque estabelece uma lógica de realização da vida, atribuindo o sentido da existência à condição de generalização da possibilidade de realização do consumo; deixa-se de consumir para viver, passa-se a viver para consumir.
De tal maneira que o mito de realização da existência, promovida e estimulada pela necessidade de criação constante de demanda - que se dá principalmente através da propaganda e das estratégias de marketing - resulta ao indivíduo na geração interna de ansiedade, e também externa, como valor agregado à mercadoria, uma ansiedade virtual instalada a partir da necessidade de se adquirir o novo: novas modas, tendências, tecnologias etc. Intensifica-se essa atmosfera de ansiedade, resultada e contida na tecnosfera (Santos, 2001), à medida que o indivíduo não pode, ou não consegue adquirir o que se afirma possível a todos, e quando acredita que reside no objeto de consumo a realização da felicidade, ou dos caminhos que possibilitem a felicidade; e mais, à medida que este indivíduo não representa um único sujeito, mas a totalidade de sujeitos que igualmente estão subjugados ao mesmo processo, submetidos à mesma parcela da marginalização, entretanto, em níveis desiguais. Bell (2005) argumenta que a gênese da paranóia reside na necessidade de lidar com aquilo que não toleramos. Ora, o não acesso ao universo de existência, de felicidade, de consumo, e prazer, que reside na fábula da globalização, no mito criado pela fábula, se impõe como idéia intolerável ao indivíduo, e a gênese do processo paranóico se instala no homem coletivo, e assim na totalidade da coletividade.
A paranóia se traduz na projeção de elementos internos não toleráveis para o mundo externo; encontra origem na ansiedade, que, também, resulta da percepção da incapacidade de ser completamente autônomo, completamente independente. O modelo atual de globalização, ao contrário do que afirma como discurso, impõe uma diminuição da autonomia ao indivíduo, entendido coletivamente, à medida que lhe impõe novas necessidades, virtuais, para a realização do cotidiano, da existência. A máquina ideológica vai estar sempre reforçando a vantagem de se estar sempre consumindo a produção, porque a produção necessita ter um mercado que esteja absorvendo a produção; de tal maneira como peça fundamental na composição da completude do indivíduo, está associado sua capacidade de consumir, e sua autonomia relacionado ao potencial que pode materializar o processo de consumo, quanto maior esse potencial, mais autônomo é o indivíduo. Sua autonomia não é mais medida em função da sua capacidade orgânica, humana de resolver os conflitos que lhe surgem; mas, artificialmente, e ainda a sensação que todas as suas demandas internas podem ser atendidas à medida que é capaz de mobilizar maiores quantidades de capital, em função do que o seu capital pode oferecer, em detrimento do próprio sentido humano de autonomia.
A diminuição da autonomia e independência do indivíduo para a realização da vida em função da possibilidade de desenvolver suas capacidades, é transferida aos objetos dispostos pelo mercado, em cada vez mais variedade, e quantidade. Não é que esse processo em si seja maléfico, mas a limitação da vida em função de mercadoria. Em alguns momentos essa lógica é reforçada socialmente, isso porque a ideologia do mercado passa a permear as relações inter-pessoais. O indivíduo passa a procurar nos diversos membros da sociedade a confirmação da sua compreensão e ratificação das suas escolhas, seja na leitura do comportamento dos outros indivíduos, ou mesmo, no respaldo de suas observações (ARONSON, WILSON, & AKERT, 2002). Assim, através da percepção de algum reforço positivo - um elogio, um gesto de aprovação, observação de um comportamento análogo - o indivíduo pode apropriar à sua identidade o objeto de consumo, atribuindo à sua autonomia um valor superlativo em função da incorporação da artificialidade, diminuindo sua ansiedade. Entretanto a percepção da artificialidade, da exterioridade, e não organicidade do objeto em relação a identidade do sujeito, a compreensão de que a expectativa foi construída em cima de uma fábula, e de que o objeto não corresponde exatamente ao propósito esperado, divulgado pela propaganda, promove uma ruptura entre o Ego e o mundo externo, ao remendo sobre o local dessa ruptura, é onde para Freud, se origina o delírio. Como neste trabalho o indivíduo é tomado na sua acepção coletiva, ou seja, a partir da sociedade e na sociedade, se depreende que esse delírio se revela na totalidade da própria sociedade, o que justifica a afirmação de Santos (2001) a respeito do culto e do fetichismo ao consumo; pois que um modo de diminuir a frustração - ao invés de lidar com o mundo real, concreto, se perceber vítima das suas contradições - é acreditar que o propósito da fantasia agregada ao produto poderá ser encontrada no próximo, enquanto não for superado por outro.
Bell, (2005) aponta nesse sentido, a própria realidade como fator possível de origem da paranóia,
“É uma peculiaridade do universo paranóico – um mundo intimidador, cheio de figuras aterradoras, que impede qualquer desenvolvimento – ser, para certas pessoas, preferível a algo que parece bem pior, a realidade. Todos sentimos dificuldade com determinados aspectos da realidade, mas para alguns isso implica a falta de controle da realidade em geral, que então é substituída por um mundo de delírio” (Bell, 2005, p.61)
Desse modo, o modelo de produção atual, e de globalização, impõe como lógica de realização da psique, a promoção de uma paranóia coletiva, neurose obsessiva e delírio paranóico coletivo, à medida que atribui significados de indispensabilidade à artificialidades, que por sua vez nem sempre podem ser adquiridos por um indivíduo, e mesmo quando podem não satisfazem por completo, e somente por um breve período, o propósito de satisfação, ou de condição de realização de liberdade, prazer, ou felicidade.
Para Marx, estes modelos ilusórios de interpretação da realidade, configuram-se elementos intrínsecos ao modelo de produção capitalista. Marx (conforme Bell, 2005, p.22) considerava a religião uma espécie de delírio coletivo, que tinha um fim importante dada a condição em que o homem se encontrava, porquanto que aos homens que para abandonar a ilusão a respeito da própria condição era necessário desistir de uma condição que exige ilusões. Assim, o modelo de produção atual, ao invés de promover ao homem a capacidade crítica de refletir sobre si e o mundo, ao contrário, tende a criar ilusões a respeito deste, a fim de que o mito da construção da felicidade e realização da vida continue atrelado ao processo de consumo. A própria condição de realização através do consumo é a maior fábula imposta pela repetição, arbitrariamente aceita pelos indivíduos, e reflexo da necessidade de criação de demanda aos processos produtivos cada vez mais ágeis.
Os processos de projeção do mundo interno ao mundo externo, e de introjeção do mundo externo ao mundo interno são naturais do processo de entendimento do mundo, e constituem nossa relação mais fundamental com o mundo ao redor, o que Klein (segundo Bell, 2005) entende como fase de “posição esquizoparanóide”. Entretanto, no processo paranóico, na tentativa de diminuir a ansiedade, e extinguir a angustia, quando projetamos uma ansiedade a uma figura externa, em seguida quando entramos em contato com ela, a introjetamos novamente; e à esta nova carga simbólica se estabelece a necessidade de projetá-la novamente, no que se estabelece um ciclo neurótico, onde essa carga tende a se intensificar cada vez mais.
O homem se realiza no espaço, é aí que encontra os elementos os quais se apropria, atribui valor e agrega à sua compreensão do mundo, para, a partir de então, realizar sua ação sobre este, o que coletivamente, através dos diferentes modos de organização, se constitui na produção e próprio espaço. Se a lógica encontrada no espaço, a partir da atual globalização, resultante do modo de produção atual, impõe um processo de neurose, na psique, esse processo estabelece também uma lógica de reprodução e intensificação do próprio processo neurótico; de onde se pode depreender que se torna cada vez mais dificultoso ao homem a compreensão da sua própria realidade, que se percebe num processo de limitação da sua própria autonomia; todos estes processos que têm sua gênese no modo de produção no espaço, que impõe essa lógica a todo indivíduo que compartilha o espaço e que a partir da sua ação, tomada coletivamente, produz espaço. Pode-se inferir, então, que a origem do movimento de reprodução das principais linhas de força do espaço, da submissão do homem à lógicas não-humanas - que inclusive impõe degradação aos processos naturais, ecológicos e ambientais, fragmentações ao espaço – em função da lógica do capital, está em parte, à incapacidade de refletir sobre o mundo concreto, devido aos processos de delírio paranóico, e paranóicos em geral, impostos à psique; mas também a outros processos de defesa do Ego.
A fragmentação do espaço se institui a partir dos processos existentes no espaço orientados pela lógica de caráter homogeneizadora e heterogeneizante do capital, na impossibilidade de realização de um indivíduo como cidadão, e no próprio indivíduo tomado em coletividade. A imposição neurótica aos indivíduos como resultado do modo de produção significa uma inversão da função e da forma da produção ao homem, do sentido da produção do espaço. A compreensão do mundo como perversidade é atingível por qualquer pessoa, contudo, como idéia intolerável, é indesejadamente projetada novamente no espaço, e dessa forma, são os sentimentos de solidariedade que são prejudicados, desagregados, fragmentados; vão se transformando em sentimentos de repulsa e distanciamento aos grupos mais desfavorecidos. Segundo Bell (2001)
“(...)os desamparados tornam-se, na nossa mente, a causa dos problemas deles mesmos, e as dificuldades que enfrentam, uma evidência de sua inferioridade moral. Quanto maior a degradação do grupo, maior a probabilidade de ele ser considerado não muito humano e, portanto, indigno da preocupação habitual com as pessoas”. (Bell, 2005, p. 74)
A diferenciação do eu, em termos de acessibilidade às infra-estruturas e bens de consumo, em relação ao outro, que não pode possuir, se estabelece numa relação de reafirmação desse distanciamento do grupo que “tem problemas”. As fragmentações no espaço são sentidas nas relações pessoais, e inter-pessoais; a compreensão sobre o homem se desumaniza, de modo que o homem que se realiza em coletividade se sente menos em coletividade, e não se percebe como um ente coletivo, mas como um indivíduo que se prepara para competir contra os demais. Entretanto, sua realidade concreta é proposta como resultado da realização coletiva, todas as instituições que observa, tudo que lhe cerca é resultado da ação coletiva coordenada. Novamente se instala uma ruptura entre o Ego e o mundo externo, de onde se originam os processos de ansiedade, e de delírio. O indivíduo ao mesmo tempo que se apresenta ao outro de forma menos ou não cooperativa porque o desconhece como um igual, também se perceber mais vulnerável, menos autônomo, mais ansioso, de onde se intensificam os processos neuróticos. Em contrapartida, o indivíduo que não consegue realizar o consumo, que imagina, ou que percebe, o qual, de modo geral, a sociedade realiza - ou o grupo onde se encontra inserido realiza - se sente perseguido, incapaz de pertencer ao grupo. O resultado desse conjunto de fragmentação é a violência.
Mike Davis (2001), defende a tese de que o aumento do uso de recursos de segurança na cidade ao contrário de possibilitar uma sensação de segurança maior, produz o efeito contrário; o que considera de grau crescente de paranóia urbana. Ao geógrafo parece óbvio essa constatação tendo em vista que o aumento de recursos de segurança reflete o grau de violência urbana. Essa constatação vem em encontro ao pensamento de que a forma concreta de equacionar a violência é através da reflexão do espaço, da análise das suas contradições, e da promoção de uma globalização mais humana, tendo em vista que o resultado imediato das fragmentações impostas pelo espaço é a violência, e como o capital se realiza de forma mais ampla na cidade (Carlos, 2007), é no espaço urbano que se institui com mais intensidade os resultados violentos, fruto dos processos de desumanização da vida, da lógica que não tem em seu fim a realização do individuo como cidadão, e da não valorização, ou desvalorização, do humano. Assim, que a racionalidade dominante acaba impondo a lógica do distanciamento entre as pessoas, entre os grupos, intensificando a fragmentação, impossibilitando a discussão política das soluções dos problemas.
No que se refere a relação entre a lógica do capital e a instância política-institucional, que se repercute no espaço, Bell (2005) ainda revela uma relação entre as posturas políticas, e o discurso orientado pela lógica da produção capitalista, na imposição do pensamento neurótico em favor do capital, citando como exemplo, “a notória habilidade de Margareth Thatcher em solapar o acordo de bem-estar social”. Assim, “o direito dos cidadãos de ter ensino e habitação como dever do Estado foi substituído por uma ideologia de propaganda que insinuava que quem procurava ajuda era na verdade um “parasita preguiçoso”, por exigir auxílio” do Estado ao invés “de bater perna e ganhar a vida sozinho como faria qualquer pessoa digna” (Bell, 2005, p.69). De forma que o indivíduo que realmente precisasse da política assistencial, ficasse inibido de ir recebê-la, como realmente aconteceu; pois que uma forma de aceitar essas política seria um modo de reconhecer a dolorosa situação em que vivia.
Desse modo, em função de se diminuir gastos com as necessidades da população, o Estado oferece por um lado a política assistencial, e por outro lado, promove um sistema ideológico que desestimula a população a utilizá-lo. A política assistencial deixa de ser um dever do Estado, e passa a ser uma vergonha ao indivíduo que tem o direito a recebê-la. Enquanto isso o Estado é capaz de subsidiar em milhões de dólares o grande produtor, através de inúmeros incentivos, promovendo uma lógica que continua a gerar grupos marginalizados, indivíduos, a quem o Estado nega o auxílio efetivo. De tal modo que o indivíduo só passa a ter valor, então, enquanto produtor, ou reprodutor do sistema, ou seja, na produção, ou enquanto consumidor.
Bell ainda lembra que muitos Estados, “com o fim de satisfazer a interesses menos manifestos, têm tido enorme sucesso em inculcar em nós essa visão paranóica do mundo” (Bell, 2005, p.73), a partir do discurso da justa afirmação dos “nossos valores” - princípios humanos - em detrimento dos “planos monstruosos” deles. Tal afirmação que converge com o entendimento de Santos quanto produção de um discurso que serve à construção de mundo como fábula, repetido incessantemente na tentativa de se impor como verdade, e que tem como sentido teleológico a defesa do grande capital; o que, a partir da sua análise, denuncia o caráter despótico da informação no modelo atual de globalização, que é produzida, e repetida, em função de objetivos atrelados ao capital, como aponta Santos (2001),
“O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vida econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida em que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadas, é, já, o resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia” (Santos, 2001, p.39)
Assim o modelo cria em contrapartida à fábula da globalização, um universo de perversidade que impulsiona o indivíduo para o universo paranóico. A atenção do indivíduo é direcionada à materialidade dos objetos e das formas; restando a preocupação com os modos mais profundos das relações interpessoais, ou com os processos internos aos sujeitos, a cada indivíduo, e mesmo à necessidade da compreensão dos processos que cercam o homem, em plano secundário. Retira-se em parte, ou limita-se, a autonomia do homem de refletir sobre si mesmo e sobre o mundo, e constrói-se, a partir da fábula e do mito da globalização, da existência de uma “aldeia global”, a imagem do Édem, de um paraíso possível a partir da técnica, e da tecnologia; incorporado à idéia e à possibilidade do consumo.
O resultado da concretização objetiva do desejo, um processo natural da realização da vida e de movimentação do homem em direção à ação, mas que passa a ter um caráter artificial, em função da satisfação de necessidades virtuais, se reverte costumeiramente como fim frustrante. Assim que, sendo essa frustração um dado concreto da realidade, somado à impossibilidade de racionalização dos processos que o cercam em geral, da própria realidade que o cerca, e das contradições desta realidade; resta ao indivíduo a necessidade de recorrer ao discurso hegemônico, a fim de encontrar alguma resposta à situação no qual se percebe inserido, e no discurso hegemônico, ao invés das respostas esperadas, provavelmente vai perceber os estímulos que promoveram os processos neuróticos da psique. De tal modo que o que se realiza é a intensificação do processo neurótico, e o reforço da necessidade do consumo, como forma de tentar diminuir a ansiedade, e que tem como resultado a intensificação desse processo. Ao grupo que se encontra impedido de acesso à realização do consumo, a perversidade é ainda maior e o pensamento neurótico, imposto pela fragmentação espacial, se coaduna no comportamento agressivo, na violência instalada nas localidades, da violência incidida no espaço.
De tal maneira que o atual modelo de produção possibilita não somente a consolidação do pensamento neurótico, mas proporciona sua intensificação como modelo de realização da vida, principalmente através do incentivo è individualidade e á competição, conforme Santos (2001). De modo que o indivíduo ao tentar se compreender no mundo, e na tentativa de entender o próprio mundo procura no comportamento dos outros indivíduos as respostas para as melhores tomadas de decisão (ARONSON, WILSON, & AKERT, 2002); assim que encontra a partir da observação das reações egoístas das outras pessoas - que também se encontram sob a ansiedade imposta ao homem pelo modelo atual de produção, e que então, também se encontram no mesmo estado neurótico - ratificam a postura neurótica. Processo que também resulta da fragmentação das relações solidárias, em detrimento da ética da competitividade, e da concorrência.
Conquanto que a população que vive à margem dos processos sente em maior grau de intensidade a perversidade da fragmentação imposta ao espaço e do processo de desumanização, todos os grupos são prejudicados por essa lógica. E o resultado mais evidente é a violência. De tal modo que devido a impossibilidade, inclusive orgânica, de se obter tudo que existe, e tudo que é produzido, se instalam novos processos de intensificação de uma ansiedade artificial, virtualmente instalada, que se amplia, dentro deste modelo de produção, à medida que a inovação tecnológica é capaz de promover inovações – quando o ideal, ou o lógico, seria ter a inovação técnica a serviço do homem.
A violência, assim, é o efeito colateral direto da racionalidade hegemônica, mais facilmente percebido; mas também a violência psicológica, ou imposta à psique, que é a origem da violência infligida pelo indivíduo e entre os indivíduos, percebida no espaço. Sendo a cidade o local de realização do capital, onde esse encontra as maiores potencialidades para realizar seus ciclos, (Carlos, 2007) e a metrópole o local onde o capital completa as fases de produção, distribuição e consumo, é na cidade que a violência adquire caráter mais intenso. Uma forma de violência que vai se estabelecendo como uma lógica; tendo em vista que é resultado da lógica dominante, do capital. E, assim, à medida que a perversidade sistêmica do “globalitarsimo” (Santos, 2001) - permitidas e produzidas através da lógica do capital - vai se apresentado de forma mais intensa, a realidade se coloca como uma idéia cada vez menos tolerável, impulsionando os processos paranóicos, e assim, institucionalizando a violência. Mais se intensificam os mitos para a construção da globalização como fábula, esta, que, desse modo, se afasta cada vez mais da realidade, impulsionando os processos de delírio paranóico, processos estes os quais, agressivos à psique do indivíduo, se estabelecem como alicerce à perpetuação da lógica do capital.



Bibliografia

BELL, David. Paranóia – Conceitos da Psicanálise. v.6. Rio de Janeiro, Rj: Relume Dumará: Ediouro: Segmento Duetto, 2005.
FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilizacao(o). Rio de janeiro, RJ: Imago, 1974.
JUNG, C. Sincronicidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
MORAES, A. C. Robert. Geografia – uma pequena história crítica. São Paulo: Hucitec, 1995.
SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo, SP: Edusp, 2008.
SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado. São Paulo: Hucitec, 1996.
SANTOS, Milton. Por Uma Geografia Nova: Da Crítica da Geografia a uma Geografia Crítica. São Paulo, SP: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do Pensamento Único à consciência universal. 5°ed. – Rio de Janeiro, RJ: Record, 2001.



*Esse é um capítulo da minha dissertação de monografia.

axé!